segunda-feira, 31 de agosto de 2009

PERIGOSOS
Mais do que uma doença, o câncer é um estigma. Os mitos que circundam esse mal são uma das principais barreiras para que as pessoas tomem medidas de prevenção e busquem o tratamento que podem salvar suas vidas


1 - A CIRURGIA ACELERA A METÁSTASE
Você já deve ter ouvido alguém falar que um tumor evoluiu depois da cirurgia. "O médico abriu e fechou", dizem. Ledo engano. "Hoje, a cirurgia cura mais de 50% dos doentes de câncer, não influenciando o crescimento do tumor. A sensação que as pessoas têm de que isso ocorre é porque o tumor cresce exponencialmente, ou seja, duplica de tamanho em intervalos de tempo. Portanto, nas fases mais avançadas esse aumento é muito mais rápido e nítido, independente de o paciente ter sido operado ou não. Coincidentemente, alguns pacientes operados em estágio avançado têm o crescimento tumoral mais rápido após a cirurgia, mas isto aconteceria mesmo sem a intervenção", explica o cirurgião Wilson Pollara, coordenador do centro cirúrgico do ICESP.


2 - EU NÃO SOU DO GRUPO DE RISCO
Se existe uma verdade sobre o câncer é que esta é uma doença democrática. Não escolhe cor, credo, idade ou classe social. Aliás, é a segunda causa mortis no Brasil, atrás apenas das doenças cardiovasculares. "A negação da doença é um estigma que contribui para os altos índices de mortalidade", alerta o psico-oncologista Lório Rodriguez, especialista do ICESP. O fato de você não fumar não significa que não possa vir a desenvolver um câncer de pulmão, assim como um fumante pode nunca ter a doença. "É preciso considerar os aspectos físicos e psíquicos da doença. Fatores emocionais - como rancor, mágoa e raiva - são agravantes no surgimento do câncer porque levam à imunodepressão, ou seja, uma baixa no sistema imunológico, que deixa o organismo menos atento a ataques virais, bacterianos ou mesmo à produção irregular de células", alerta o especialista.

3 - É UMA SENTENÇA DE MORTE
Não. Muitos tipos de câncer são tratáveis e, se descobertos em sua fase inicial, têm cura. Os principais métodos de tratamento são: cirurgia, quimioterapia e radioterapia. A OMS estima que um terço de todos os cânceres possa ser curado se for precocemente detectado e tratado. Isso implica em conscientizar a população para que reconheça os sinais iniciais da doença, e aí cabe ao governo investir em uma política pública de esclarecimento, sobre os diversos tipos da doença e seus sintomas e orientar a procura por ajuda médica assim que seja observada alguma alteração no organismo.

4 - UMA PESSOA DA MINHA FAMÍLIA TEVE CÂNCER, VOU TER TAMBÉM
Estima-se que de 5% a 10% dos casos sejam de caráter hereditário. "O que sabemos com certeza é que os fatores a que somos expostos durante a vida são determinantes, como o hábito de fumar, principal fator de risco para o câncer de pulmão, cabeça e pescoço; e a obesidade na pós-menopausa, que aumenta o risco de câncer de mama", esclarece Maria Del Pilar Estevez Diz, coordenadora do ambulatório de Oncologia Clínica do ICESP. Para determinar se há ou não fatores hereditários consideráveis, é preciso observar algumas características como: idade do aparecimento do câncer mais jovem que o usual; o mesmo lado da família (materno/paterno) comprometido; pessoas com mais de um câncer ao longo da vida, casos de cânceres raros na família, padrão reconhecido correspondente a mutações genéticas ou casos de câncer de mama, ovário e cólon na família.

5 - NINGUÉM SABE O QUE ESTOU PASSANDO
O Inca estima que, em 2008, foram diagnosticados cerca de 460 mil novos casos da doença, ou seja, tem muita gente vivendo a mesma angústia do diagnóstico e outras tantas dispostas a ajudar os pacientes. É fundamental que a pessoa faça uma terapia em paralelo ao tratamento e seja estimulada a falar sobre seus temores e dúvidas. "É a conspiração do silêncio. O paciente sofre sozinho, tem medo de morrer, mas não fala para ninguém. Parentes e amigos sabem que a doença existe, mas não tocam no assunto. Essa tensão toda gera raiva, impotência e desequilíbrio, o que não ajuda em nada no quadro geral", explica Lório Rodriguez. O acompanhamento de um psico-oncologista não apenas alivia o sofrimento, como o auxilia a encarar o tratamento com mais tranquilidade.

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